

Uma pesquisa de campo realizada no distrito de Cana Brava, no município de Arraias, no sudeste do Tocantins, evidenciou a vitalidade das tradições culturais preservadas por uma comunidade de cerca de 300 habitantes.
O estudo teve como foco a tradicional Festa do Judas, manifestação popular realizada anualmente durante a Semana Santa e considerada um dos momentos mais significativos da vida cultural local.
Marcada por fortes laços comunitários, Cana Brava mantém vivas práticas transmitidas de geração em geração, nas quais fé, memória e costumes se entrelaçam no cotidiano dos moradores. Em 2025, a coleta de dados ocorreu durante a própria festividade, permitindo o acompanhamento direto dos rituais e a interação com os participantes.
As observações concentraram-se nos dois dias centrais da celebração — Sexta-feira da Paixão e Sábado de Aleluia — incluindo o cortejo, a encenação dos personagens, a leitura do tradicional testamento e a queima do boneco de Judas.
Além do registro dos rituais, foram realizadas conversas informais com moradores e registros fotográficos, com o objetivo de compreender os significados simbólicos da festa e o sentimento de pertencimento que ela desperta na comunidade.
A pesquisa aponta que a Festa do Judas reúne uma série de elementos simbólicos que estruturam uma narrativa coletiva.
O boneco, a batucada, os palhaços e os rituais encenados compõem uma expressão cultural dinâmica, que se reinventa ao longo do tempo sem perder sua essência. A celebração reforça vínculos sociais e preserva a identidade local, funcionando como um espaço de memória e continuidade cultural.
Marca quilombola
Inserida nesse contexto, a prática da malhação do Judas também dialoga com matrizes históricas da cultura negra no Brasil, especialmente em comunidades com forte herança quilombola.
Em diferentes regiões do país, a tradição incorpora elementos de crítica social, sátira e resistência, muitas vezes associando o personagem de Judas a figuras de opressão ou injustiça, em uma forma simbólica de denúncia coletiva.
Em territórios marcados pela presença de descendentes de quilombolas, como ocorre em áreas do sudeste tocantinense, essas manifestações ganham contornos próprios.
A musicalidade, o uso de máscaras, a teatralidade e o protagonismo comunitário revelam influências de matrizes africanas, nas quais o ritual assume não apenas um caráter religioso, mas também político e cultural.
A malhação do Judas, nesse sentido, ultrapassa o aspecto festivo e se consolida como expressão de memória histórica e afirmação identitária.
Como parte do trabalho, foi produzido um documentário idealizado, gravado e editado pelas alunas Aryanne Pablynne Ganda Gonçalves, Ana Luiza Siqueira dos Santos e Maria Eduarda Fernandes Nolasco. As estudantes participaram de todas as etapas da produção, estabelecendo uma relação direta com a comunidade e contribuindo para o registro e a valorização da Festa do Judas como patrimônio cultural de Cana Brava.
Assista ao documentário