
Após mais de dois anos de articulações institucionais, estudantes da comunidade quilombola Kalunga Diadema, no município de Teresina de Goiás, passaram a ter acesso ao ensino fundamental II presencial, do 6º ao 9º ano, na Escola Municipal Tia Adesuíta.
As aulas tiveram início no ano letivo de 2026, encerrando uma rotina que obrigava os alunos a percorrer cerca de 47 quilômetros de estrada de terra para estudar na área urbana.
A medida foi viabilizada por meio de atuação do Ministério Público de Goiás (MPGO), envolvendo a Área da Educação do Centro de Apoio Operacional (CAO), a Promotoria de Justiça de Cavalcante e o Centro de Autocomposição e Conflitos de Segurança (Compor), em articulação com a Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc) e a Prefeitura de Teresina de Goiás.
Até recentemente, estudantes da comunidade que cursavam os anos finais do ensino fundamental e o ensino médio precisavam se deslocar diariamente em transporte escolar até o Colégio Estadual Joaquim de Souza Fagundes, no centro de Teresina de Goiás. A viagem começava pela manhã e o retorno ocorria apenas à noite.
Como alternativa, chegou a ser proposta a implantação do ensino mediado por tecnologia, por meio do programa Goiás TEC. A comunidade, no entanto, rejeitou a modalidade, alegando dificuldades estruturais, como quedas frequentes de energia elétrica e ausência de internet de qualidade, além de considerar o modelo inadequado às especificidades culturais da comunidade quilombola.
Em fevereiro de 2024, a promotora de Justiça da comarca de Cavalcante, Úrsula Catarina Fernandes da Silva Pinto, realizou uma escuta social com moradores da comunidade na própria escola Tia Adesuíta. Na ocasião, os moradores manifestaram, de forma unânime, a preferência pela implantação do ensino presencial no território.
A partir daí, foram realizadas diversas reuniões entre o Ministério Público, a Seduc e o município de Teresina de Goiás para viabilizar a oferta das aulas. O impasse inicial girava em torno da contratação de professores, já que o município não tinha condições de assumir essa despesa e o estado alegava número reduzido de estudantes para abertura de uma nova unidade.
A solução foi definida em reunião realizada em maio de 2025 com a secretária estadual de Educação, Fátima Gavioli, quando ficou acordado que o ensino presencial seria implantado a partir de 2026. A escola passou a funcionar como extensão do Colégio Estadual Quilombola Kalunga Mãe França, com responsabilidades compartilhadas entre estado e município.
Pelo acordo, o governo estadual ficou responsável pela disponibilização de professores, alimentação escolar, mobiliário e material didático. Já o município assumiu o transporte dos docentes, a disponibilização de merendeiras e servidores de apoio, além da manutenção da unidade.
Atualmente, o ensino é oferecido em duas turmas multisseriadas no turno vespertino: uma com estudantes do 6º e 7º anos e outra com alunos do 8º e 9º anos. As atividades seguem as diretrizes da educação escolar quilombola definidas pelo Ministério da Educação e pela Secretaria Estadual de Educação.
A coordenadora da Área da Educação do MPGO, Vanessa Goulart, afirmou que o Ministério Público continuará acompanhando a implementação do ensino presencial na comunidade. Segundo ela, a iniciativa está alinhada às diretrizes nacionais voltadas à educação escolar quilombola e à promoção da equidade no acesso à educação.
Para a promotora de Justiça Úrsula Catarina Fernandes, a escuta da comunidade foi fundamental para a construção da solução. “Foi muito importante ouvir a comunidade, compreender suas peculiaridades e verificar que os moradores têm clareza sobre qual é a forma mais adequada de oferta de ensino para seus estudantes”, destacou.

