
A disputa territorial entre Goiás e Bahia, que se arrasta há cerca de quatro décadas, voltou ao centro das discussões políticas e administrativas na região do Matopiba — área de expansão agrícola que engloba partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
A controvérsia envolve uma área de aproximadamente 42,3 mil hectares, atualmente sob administração baiana, mas reconhecida pela Justiça como pertencente ao território goiano.
O Oeste da Bahia, que faz extensa divisa com Goiás, é hoje a região que mais cresce economicamente no estado baiano, com destaque para os municípios de Luís Eduardo Magalhães e Correntina, impulsionados pelo agronegócio de alta tecnologia.
No entanto, parte dessas terras está no centro de um impasse federativo.
Em 2014, o Supremo Tribunal Federal (STF) validou um estudo cartográfico realizado pelo Exército Brasileiro que redefiniu o traçado da fronteira entre os dois estados.
De acordo com o levantamento, o limite territorial deve seguir o divisor de águas da Serra Geral, e não a base da serra — interpretação que vinha sendo utilizada anteriormente.
A decisão foi tomada no julgamento da Ação Cível Originária (ACO) 347, relatada pelo ministro Luiz Fux, que determinou a devolução a Goiás de 42,3 mil hectares da área em disputa — o equivalente a quase 9 mil alqueires.
Trata-se de terras altamente valorizadas pelo avanço tecnológico da produção agrícola, onde o valor do alqueire pode ultrapassar R$ 1 milhão.
A região tornou-se um polo de agricultura de precisão, apelidado por especialistas de “Vale do Agrossilício”, em referência ao uso intensivo de tecnologia no campo.
Acordo político buscou evitar divisão de distrito
Em 2018, uma tentativa de solução política foi articulada pelos então governadores José Eliton, de Goiás, e Jaques Wagner, da Bahia.
O entendimento previa que a decisão favorável a Goiás no STF seria aplicada por meio de uma linha reta entre os dois estados, evitando o fracionamento do distrito de Rosário, pertencente ao município de Correntina e que hoje possui cerca de 10 mil habitantes.
O acordo buscava dar segurança jurídica à população local e aos produtores rurais instalados na região.
Municípios goianos reivindicam recuperação territorial
Em entrevista ao jornal O Hoje, o ex-governador José Eliton, natural de Posse, lembrou que, durante sua gestão, houve forte mobilização para que municípios do Nordeste goiano — como Campos Belos, Guarani de Goiás, Mambaí, Posse, São Domingos e Sítio d’Abadia — recuperassem áreas historicamente ocupadas por produtores, mas administradas pela Bahia.
Segundo ele, além do valor da terra nua, o impacto econômico é significativo. Estima-se que os territórios em disputa produzam cerca de 4 milhões de sacas de grãos por ano, ampliando o prejuízo potencial para Goiás.
Impasse persiste apesar da decisão judicial
Mesmo após a validação do levantamento do Exército e da decisão do STF, a devolução das áreas ainda não foi efetivada.
De acordo com Eliton, a consolidação da demarcação chegou a avançar durante o período em que Jaques Wagner governava a Bahia.
No entanto, seu sucessor no governo baiano, Rui Costa, atualmente ministro da Casa Civil, teria recuado diante de pressões de entidades locais.
Desde então, segundo relatos de lideranças goianas, o processo perdeu impulso e a situação permanece indefinida.
Enquanto a questão não é resolvida administrativamente, a região continua sendo uma das áreas agrícolas mais valorizadas do país, marcada por investimentos em tecnologia e pela expansão do agronegócio — fatores que tornam a disputa territorial ainda mais sensível.
