Aliny fugiu do agressor e se mudou para Campos Belos (GO); retorno a Arraias para cuidar da avó terminou em tragédia

A cidade de Arraias (TO) amanheceu devastada nesta sexta-feira (21) após a confirmação da morte de Aliny Pereira de Ornelas, de 25 anos.

A técnica de enfermagem foi vítima de feminicídio na noite desta quinta-feira (20). O principal suspeito é o ex-companheiro, Edivaldo Teixeira Chaves, de 36 anos, que, segundo a Polícia Militar, tirou a própria vida logo depois do crime.

Para tentar reconstruir a própria vida, Aliny havia deixado Arraias e se mudado para Campos Belos (GO) há alguns meses. Segundo familiares, essa mudança teve um motivo claro: afastar-se de Edivaldo, que não aceitava o fim da relação e mantinha comportamento agressivo.

A irmã da vítima, Darline Ornelas, explicou que Aliny retornou à cidade temporariamente apenas para ajudar a cuidar da avó, internada após sofrer um AVC.

“Desde segunda-feira ela estava na casa da minha mãe. Nossa avó estava internada, e nós nos revezávamos para acompanhar os cuidados. Na quinta-feira ela entraria de plantão no hospital”, afirmou Darline.

Suspeito tentou encontrá-la no hospital

Na noite de quarta-feira (19), véspera do crime, Edivaldo foi ao hospital da cidade procurando pela ex-companheira. Exaltado, tentou forçar contato, mas foi contido pelo segurança.

“Eu revezava com ela por volta das 22h, e nesse mesmo dia ele apareceu tentando entrar. A segurança precisou impedir que ele passasse da porta”, relatou a irmã.

Crime abala comunidade

O corpo de Aliny foi encontrado na noite de quinta-feira (20) no imóvel onde estava hospedada. O suspeito também foi localizado morto no mesmo local. A Polícia Militar trabalha com a hipótese de feminicídio seguido de suicídio.

A notícia gerou enorme comoção em Arraias. Filha de uma professora muito querida, Aliny era querida e amplamente conhecida. Seu perfil nas redes sociais passou a receber centenas de mensagens de pesar, homenagens e desabafos emocionados — reflexo do luto coletivo que tomou conta do município.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que a família confirmou a separação recente do casal, ocorrida há cerca de dois meses. O suspeito não aceitava o fim do relacionamento. No local foram apreendidos uma arma calibre .22 e uma faca, instrumentos que teriam sido utilizados para cometer o crime.

A área foi isolada para os trabalhos de perícia, e os corpos encaminhados ao IML de Gurupi. A investigação está sob responsabilidade da 105ª Delegacia de Polícia de Arraias, que deve apurar se havia registros prévios de ameaças ou agressões.

Uma tragédia que expõe, mais uma vez, o fracasso coletivo diante da violência contra a mulher

O caso de Aliny não é isolado, tampouco inesperado em um país que convive diariamente com relatos de violência doméstica, perseguição, ameaças e feminicídios.

Apesar das campanhas educativas, das leis de proteção, das redes de apoio e da ampla divulgação de mortes brutais — muitas vezes de mulheres que, como Aliny, tentaram se afastar do agressor — os crimes continuam a ocorrer com uma frequência alarmante.

A tragédia revela que não basta apenas informar: é necessário transformar a cultura, romper pactos sociais que silenciam vítimas, responsabilizar agressores e enxergar sinais que, muitas vezes, estão à vista de todos.

A morte de Aliny é mais um lembrete doloroso de que a violência contra a mulher não é um problema privado, mas uma responsabilidade coletiva. Enquanto sociedade, ainda falhamos em proteger mulheres que pedem ajuda, que tentam recomeçar, que fogem, que denunciam — e, mesmo assim, continuam sendo mortas.

Arraias segue em luto, e o Brasil segue diante de mais um feminicídio que poderia ter sido evitado. Uma vida interrompida, uma família destruída e uma comunidade inteira tentando entender quando, enfim, a violência contra a mulher deixará de ser rotina.