BR-010 expõe contradição ambiental do governo Lula no coração do Cerrado

A construção de um novo trecho da BR-010, entre os municípios de Monte Alegre de Goiás (GO) e Paranã (TO), tem provocado debates sobre impactos ambientais, sociais e políticos na região do Nordeste goiano e Sudeste do Tocantins.

A obra, conduzida pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é apontada por críticos como contraditória em relação ao discurso de preservação do Cerrado adotado pela atual gestão federal.

O traçado da rodovia prevê o corte de aproximadamente 90 quilômetros de cerrado nativo, considerado ainda virgem e bem preservado, em uma área próxima à Serra do Tombador — região reconhecida pela biodiversidade e relevância ambiental. Quando concluída, a estrada deve reduzir o tempo de deslocamento entre Palmas e Brasília, em apenas cerca de 70 km.

Por outro lado, especialistas e moradores locais alertam para os possíveis impactos ambientais e socioeconômicos. Além da supressão de vegetação nativa, há preocupação com o isolamento de comunidades tradicionais e municípios que hoje dependem do fluxo gerado pelas rotas atuais. Regiões próximas às Serras Gerais, por exemplo, podem sofrer efeitos indiretos na economia e no desenvolvimento local.

Nesta terça-feira (17), representantes da empresa Prosul, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e do Ministério dos Transportes participaram de uma reunião com a comunidade quilombola Kalunga do Mimoso. O encontro, realizado na sede da associação local, teve como objetivo apresentar o projeto da rodovia, detalhar os estudos ambientais e discutir o componente quilombola da obra, além de ouvir as demandas da comunidade.

Outro ponto que amplia a controvérsia em torno da BR-010 envolve interesses econômicos na região. Há relatos de que áreas ao longo do traçado projetado já vêm sendo adquiridas por investidores e empresas, com expectativa de valorização imobiliária e instalação de empreendimentos, como postos de combustíveis e estruturas de apoio logístico.

O debate também ganha contornos políticos diante da possível ligação indireta com o governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos). O chefe do Executivo estadual foi afastado do cargo por 180 dias por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em setembro de 2025, no contexto de investigações conduzidas pela Polícia Federal do Brasil.

As apurações fazem parte da chamada Operação Nêmeses, que investiga supostos desvios de recursos públicos durante a pandemia de Covid-19, incluindo fraudes na aquisição de cestas básicas. Segundo as investigações, valores desviados teriam sido utilizados em bens privados, como propriedades rurais e empreendimentos turísticos na região de Paranã e em áreas próximas à Serra de Taquaruçu.

Entre os pontos investigados está uma chácara localizada no distrito de Campo Alegre, em Paranã, que teria sido alvo de busca e apreensão. O imóvel, situado em área de interesse turístico e também marcada por disputas territoriais entre Goiás e Tocantins, integra o conjunto de bens sob análise das autoridades.

De acordo com a Polícia Federal e o Ministério Público, o esquema investigado pode ter causado prejuízo de dezenas de milhões de reais aos cofres públicos. O governador afastado nega irregularidades e, à época da decisão judicial, classificou o afastamento como precipitado.

Enquanto as investigações seguem em curso, a construção da BR-010 avança cercada por questionamentos. Entre promessas de desenvolvimento logístico e críticas relacionadas à preservação ambiental e à transparência pública, o projeto expõe os desafios de conciliar crescimento econômico, proteção de biomas e interesses locais em uma das regiões mais sensíveis do país.