
Na quinta-feira (5), moradores negros de Monte Alegre de Goiás, Teresina de Goiás e Cavalcante realizaram a primeira reunião para organizar um movimento que reivindica reconhecimento oficial como comunidades remanescentes de quilombos.
O encontro marca o início de uma articulação que busca justiça, inclusão e reparação por uma história ainda pouco reconhecida.
Embora mais de um século tenha se passado desde o fim da escravidão, representantes das famílias lembram que o Estado brasileiro nunca reconheceu oficialmente os descendentes de pessoas escravizadas que permaneceram nas áreas urbanas dessas cidades — diferentemente do que aconteceu com o território Kalunga.
Eles destacam que, muito antes da consolidação do quilombo nas serras, já existiam comunidades negras vivendo e resistindo dentro das cidades, onde seguiram trabalhando até o último dia do período escravocrata.
Segundo os participantes, essa ancestralidade ligada às áreas urbanas tem sido invisibilizada ao longo das décadas, resultando em exclusão de políticas públicas voltadas às comunidades quilombolas e em dificuldades para acessar direitos básicos, como moradia, assistência social e programas específicos de saúde, educação e cultura.
Movimento busca reconhecimento da Fundação Cultural Palmares
A reunião deu início ao processo de organização para solicitar o reconhecimento oficial das comunidades junto à Fundação Cultural Palmares — passo necessário para que os grupos sejam incluídos nas políticas públicas destinadas a povos tradicionais. O objetivo é comprovar a continuidade histórica, os laços de ancestralidade e a identidade cultural que permanecem vivas entre as famílias das três cidades.
Os líderes do movimento reforçam que não se trata de rivalidade com o território Kalunga, mas de ampliar o olhar histórico da região.
“Antes do Kalunga existir como território reconhecido, havia famílias negras escravizadas nas cidades. Seus descendentes estão aqui até hoje, mas nunca tiveram seus direitos reconhecidos. Queremos apenas inclusão e respeito à nossa história”, afirmam.
Exclusão histórica e resistência
O grupo relata que, por estarem fora do território oficialmente delimitado para o quilombo Kalunga, as famílias nunca tiveram acesso a programas voltados a comunidades tradicionais — mesmo compartilhando a mesma origem e trajetória de resistência.
Muitos descendentes vivem sem regularização fundiária e sem acesso a políticas de promoção cultural, sentindo-se abandonados por instituições públicas e organizações que atuam na defesa dos direitos quilombolas.
“Somos parte da história dessas cidades. Se todos os escravizados tivessem fugido para as serras, Monte Alegre, Teresina e Cavalcante talvez nem existissem hoje. Permanecemos aqui, resistimos e construímos estes lugares. Até quando vão fingir que não existimos?”, questionam.
A luta por reparação
O encontro reuniu famílias que relatam carregar, até hoje, as consequências de séculos de exploração e abandono. Muitas vivem sem terra, sem moradia adequada e sem acesso a programas específicos para comunidades negras tradicionais. Os participantes afirmam que a atual mobilização é também uma forma de cobrar do Estado um reconhecimento tardio:
“Nossos antepassados trabalharam forçadamente até o último minuto da escravidão. Foram libertos sem receber nada — nem terra, nem apoio. Essa dívida histórica ficou para nós, e estamos aqui para reivindicar o que nunca foi entregue.”
Organização do movimento
São responsáveis pelo Projeto de Identificação das Famílias Remanescentes de Quilombolas de Monte Alegre, Teresina e Cavalcante (fora do território Kalunga):
- Luciana Ferreira da Silva
- Dulcineide Rosa da Conceição
- Luciene da Conceição Silva
- Osmarina Alves dos Santos
- Jerani Ferreira da Silva
- Maria Aparecida Oliveira Ribeiro
- Rodrigo Soares de Souza
- Valdivino
- Edidamar
- Professora Jane
Novas reuniões devem ocorrer nos próximos meses, quando será encaminhado o pedido formal de reconhecimento às autoridades competentes.
Ao final do encontro, a mensagem das comunidades foi unânime:
“Queremos dignidade, queremos respeito, queremos ser vistos. Nossa luta é pela memória dos nossos ancestrais e pelo futuro das próximas gerações.”