A comunidade quilombola Kalunga tem se destacado como uma das principais referências de turismo sustentável no Brasil, reunindo preservação ambiental, valorização cultural e geração de renda no território da Chapada dos Veadeiros.
O destino atrai visitantes de diversas regiões do país interessados em experiências autênticas no Cerrado brasileiro.
Localizada a cerca de 27 quilômetros do município de Cavalcante, a comunidade Engenho II tornou-se um dos principais polos de turismo de base comunitária do território Kalunga. A organização das atividades é conduzida pelos próprios moradores, que estruturaram serviços de visitação com foco na sustentabilidade, incluindo guias locais capacitados, hospedagem familiar e alimentação típica.
A região oferece acesso a atrativos naturais de grande relevância, como as cachoeiras Santa Bárbara, Capivara e Candaru, conhecidas pelas águas cristalinas e pela paisagem preservada. Além dos banhos, os visitantes percorrem trilhas que proporcionam contato direto com a biodiversidade do Cerrado, em roteiros conduzidos por guias da própria comunidade.
O turismo tem papel central na economia local. Segundo a guia Júlia Paulino dos Santos, a atividade responde por cerca de 75% da renda da comunidade.
“Sem turistas, não temos dinheiro”, afirma. Para garantir a qualidade da experiência e a segurança dos visitantes, mais de 400 condutores foram capacitados pela Associação Quilombo Kalunga, responsável por coordenar as atividades turísticas e distribuir os benefícios de forma coletiva.
A experiência no território Kalunga vai além das belezas naturais. Os visitantes têm a oportunidade de vivenciar práticas culturais tradicionais, como refeições preparadas em fogão à lenha, servidas em construções de barro cobertas com palha, além da participação em rodas de conversa, contação de histórias e atividades comunitárias.
Entre as manifestações culturais, destaca-se a dança da Sussa, expressão de origem africana que simboliza resistência, identidade e ancestralidade. As celebrações envolvem música, dança e rituais ligados aos ciclos produtivos, reforçando os laços comunitários e promovendo a transmissão de saberes entre gerações.
A gestão do turismo é feita de forma colaborativa, com participação ativa dos moradores e liderança comunitária. De acordo com representantes locais, o modelo busca equilibrar o desenvolvimento econômico com a preservação cultural e ambiental, garantindo autonomia e protagonismo à comunidade.
O território Kalunga possui cerca de 260 mil hectares e reúne dezenas de comunidades quilombolas, sendo reconhecido como um dos maiores do Brasil. O reconhecimento e a proteção cultural contam com o apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que atua na salvaguarda do patrimônio material e imaterial, incluindo práticas culturais, modos de vida e tradições orais.
As visitas são realizadas mediante acompanhamento de guias locais e envolvem taxas que contribuem diretamente para a manutenção das atividades comunitárias. Os valores variam conforme o número de pessoas e os atrativos escolhidos, com opções de transporte tradicional, como o “pau de arara”, utilizado no deslocamento até algumas trilhas.
Mais do que um destino turístico, o quilombo Kalunga se afirma como um modelo de desenvolvimento sustentável, no qual a preservação da natureza e da cultura caminham juntas. A iniciativa reforça a importância do turismo responsável e da valorização das comunidades tradicionais como protagonistas na proteção do patrimônio brasileiro.